sábado, 1 de novembro de 2014

O céu do mês – Novembro 2014

Antônio Rosa Campos
arcampos_0911@yahoo.com.br
CEAMIG – REA/Brasil – AWB

Certamente são as ciências e a artes de uma maneira geral que inspira a humanidade no caminho infinito das estrelas. Dessa forma, música e poesia, aliadas a aguerrida vontade de conhecer o céu, resultam na alegria e motivação necessária para colocar em papel todo esse conjunto de acontecimentos que vêm das estrelas; agora então afinados por esse diapasão e antecedendo ao nascer do Sol neste primeiro dia, Mércurio estará visível nos instantes iniciais do crepúsculo matutino ao lado da brilhante estrela Spica. Aos primeiros sinais da noite neste primeiro dia ainda, após o fim do crepúsculo náutico a Lua já estará presente no céu indicando na constelação de Aquarius sua proximidade ao longínquo Planeta Netuno. Que seria dos poetas e trovadores então sem a Lua por testemunha e dos astrônomos para apreciar as nuances de suas fases? A Uranometria de John Bayer em 1603, talvez seja a retratação celeste fiel dessa interpretação ao novo mundo, que cerca de 1 século passado estava descortinando naquela comunidade de pensadores do século XVII; amante da natureza, valeu-se Bayer desse conhecimento angariado junto a marujos e comerciantes que singravam o oceano naqueles tempos. Naquela obra viram surgir no céu um novo nome passeriforme, originário das florestas tropicais americana. Tucana então fixou ninho no encanto e na magia que recompensa fielmente um observador do céu noturno após a pausa de sua jornada numa noite de observação bem sucedida; mesmo sendo um chilrear rouco, ouçamos essa voz!


Ocultação de Urano pela Lua

Em 04 de novembro a Lua +94% iluminada e com a elongação solar de 151°, ocultará o planeta Urano de cuja magnitude encontra-se estimada será de 5.7. Esse evento poderá ser observado na Islândia e as regiões adjacentes ao Círculo Polar Ártico de acordo com a figura A apresentada no quadro 1 e também circunstâncias locais constante na tabela 2.

Ocultações de estrelas pela Lua 

Hyadum II (delta 1 Tauri)

Em 08 de novembro a Lua -97% iluminada e com a elongação solar de 159°, ocultará a estrela Hyadum II (delta 1 Tauri) de magnitude 3.8 e tipo espectral K0-IIICN0.5. Esse evento poderá ser observado no oceano pacífico e sudeste da Ásia de acordo com a figura B, apresentada no quadro 1.

Lambda Geminorum

Em 11 de novembro a Lua -75% iluminada e com a elongação solar de 120°, ocultará a estrela lambda Geminorum de magnitude 3.6 e tipo espectral A3V. Esse evento poderá ser observado na Ásia e no leste europeu de acordo com a figura C, apresentada no quadro 1.

(Subra) Omicron Leonis

Em 14 de novembro a Lua -48% iluminada e com uma elongação de 88°, ocultará a estrela omicron Leonis (Subra) de magnitude 3.5. Esse evento poderá ser observado no sudeste da Ásia e na Oceania (Austrália) de acordo com a figura D, apresentada no quadro 1.

Rho Sagittarii

Em 26 de novembro a Lua +15% iluminada e com a elongação solar de 46°, ocultará a estrela Rho Sagittarii de magnitude 3.9 e tipo espectral K1III. Esse evento poderá ser observado na América do Norte (Canadá e Estados Unidos) de acordo com a figura E, apresentada no quadro 1.

Dabih Major (beta Capricorni)

Em 27 de novembro a Lua +25% iluminada e com a elongação solar de 59°, ocultará a estrela Dabih Major de magnitude 3.1 e tipo espectral F8V+A0. Esse evento poderá ser observado na região oeste da América do Norte e Oceano Pacífico de acordo com a figura F, apresentada no quadro 1. 

Planetas, asteroides e cometas!

No primeiro dia deste mês então o diminuto Mercúrio (-0.5) na constelação de Virgo estará em sua máxima elongação (18.6º W) matutina; as madrugadas então neste mês de primavera (no hemisfério Austral) terá a presença de Júpiter (-2.1) na constelação de Leão; sempre que possível faça uma visita telescópica a este gigante gasoso, pois seus satélites maiores apresentam uma configuração diferente. Isso será um bom início de manhã, pelo menos até que o planeta Vênus (-3.9), por enquanto bem próximo ao disco solar aumente suas elongações sendo elas mais favoráveis a partir da segunda quinzena do mês de dezembro. Em contra ponto, diminuindo cada vez mais suas elongações Marte (1.0) poderá ser observado nas primeiras horas do crepúsculo vespertino; com o alinhamento de Marte ao longínquo (134340) Plutão (magnitude 14.2), visto que ambos estarão na constelação de Sagittarius (tabela. 3), fiquei fascinado coma ideia de um possível observador com um telescópio de 400mm possa identificar ambos naquela região do céu (a representação gráfica de Plutão, está inserida no interior circulo menor indicado pela seta vermelha). A figura 2, mostra o quanto é rica e conhecida aquela área do céu.


Saturno (0.5) ficará mergulhado na claridade do dia, devido a sua conjunção solar no dia 18 próximo. Este dia também marcará seu apogeu estando ele cerca de 10.9342308 ua ou cerca de 1.635 milhões de quilômetros da Terra (Campos, 2013). Urano (5.7), lentamente atravessando a constelação de Pisces será facilmente observado nas regiões próximas ao Ártico devido à ocorrência de sua ocultação no dia 08 próximo; enquanto isso Netuno (7.9) no limite dos gigantes gasosos do Sistema Solar encontra-se em Aquário e diminuindo a cada dia suas elongações.  (1) Ceres (8.8), também mergulhado na claridade solar estando próxima a sua conjunção com o Sol agendada para o mês seguinte.

Lua = As fases lunares neste mês, ocorrerão nas datas e horários abaixo mencionadas em Tempo Universal de acordo com a figura 3:

A ocorrência das apsides (Perigeu e Apogeu) lunares dar-se-á neste mês na seguinte sequência: Apogeu em 15/11 às 01:57 (UT), quando a Lua estará a 404.336 km do centro de nosso planeta. Perigeu em 27/11 às 23:12 (UT), quando a Lua então estará somente 369.824 km do centro da Terra.

Asteroides

No mês anterior mencionamos a oportunidade de observações do asteroide (46) Hestia, chegando o mesmo a magnitude de 10.5 encontrando-se o mesmo na constelação de Aries. Entretanto 3 oportunas janelas observacionais se abrem neste período quando então em 03 de novembro teremos a oposição do asteroide (78) Diana naquela mesma constelação, atingindo magnitude de 11.4. (52) Europa, este foi objeto de postagem nessas páginas em agosto de 2013, novamente poderá ser observado com uma magnitude 10.5 na constelação de Cetus na noite de 05 de novembro. Mas será (6) Hebe o melhor asteroide a ser observado neste mês, pois sua magnitude de 8.1 facilmente o denunciará na constelação de Eridanus em 15 de novembro, quando então ele estará cerca de 1.212 ua da Terra.

Cometas

Ainda neste início de mês o cometa Pan-STARRS (C/2012 K1) esteja na constelação de Pictor, Já no dia 6 próximo ingressa na constelação de Dorado (tabela 4); atravessando consequentemente neste período ainda as constelações de Reticulum, Horologium, terminando o mês em Phoenix.

O cometa Oukaimeden (C/2013 V5); poderá ser observado nas primeiras horas após o ocaso do sol na constelação de Libra (tabela. 5) nos primeiros dias deste mês, fiquei mesmo surpreendido com a quantidade de fotografias que vi deste interessante objeto.

A surpresa para este fim de ano e para o início do próximo será o cometa Lovejoy (C/2014 Q2). Este cometa foi descoberto por Terry Lovejoy em 17 de agosto de 2014 através de um telescópio Schmidt-Cassegrain de 0,2m f/2,1 + CCD, quando o objeto estava com magnitude 14,8. (Amorim, 2014). As efemérides apresentadas na tabela 6, já demonstram que suas observações estão favoráveis aos observadores do hemisfério Sul entre as constelações Vela e Puppis.

CONSTELAÇÃO:

Tucana

Estão certos os diversos autores mencionarem que não existe uma profusão de estrelas brilhantes delineando a constelação Austral de Tucana. Entretanto a profusão de relatos observacionais existentes sobre ela é unânime ao afirmarem a beleza dos objetos Deep-Sky que ali encontramos. Como sou um “otimista incorrigível”, buscarei da melhor forma possível, assim como John Bayer em 1603, insistir e apresentar algumas das principais estrelas dessa constelação (figura. 4)

Alpha Tucanae, uma binária espectroscópica de magnitude visual de 2.8; estrela gigante laranja e classe espectral K3III, ela encontra-se aproximadamente cerca de 200 anos luz, podendo ser representada como o extenso bico característico dessa ave. Em seu dorso, encontramos Gamma Tucanae, uma estrela gigante branco-amarelada de magnitude 3.9, tipo e classe espectral F4III que na realidade e a segunda estrela mais brilhante dessa constelação; já Beta1 Tucanae e Beta3 Tucanae na realidade referem-se a um sistema múltiplo de estrelas ligadas gravitacionalmente cujo mais brilhante Beta1 Tucanae, tem a magnitude visual, classe e tipo espectral B9IV; enquanto Beta3 Tuc 5.0 tem a magnitude visual estimada em 5.0, classe e tipo espectral A1IV. Beta2 Tucanae (não apresentada na figura) por estar muito próxima (visualmente) a Beta1 e uma estrela azul de magnitude 4.5, classe espectral A1IV, todo esse sistema encontra-se cerca de 150 anos-luz em média do Sol. Configura ainda em outra parte desta constelação Zeta Tucanae é uma estrela branco amarelada de magnitude 4.2, tipo e classe espectral F9.5V. Essa estrela apresenta um movimento próprio muito elevado, devido a sua proximidade ao Sol, estimado em apenas 28 anos-luz de distância.

Entretanto essa constelação ainda e hospedeira de algumas estrelas interessantes; chamará atenção Eta Tucanae, uma estrela branca de magnitude 5.0 e classe e tipo espectral A2V; Epsilon Tucanae, uma estrela azul de magnitude 4.4, tipo e classe espectral B8V e ainda Kappa Tacanae de magnitude 4.2, classe e tipo espectral F5V. Essa última então faz parte na realidade de um sistema múltiplo totalizando 4 estrelas. 

Objetos Deep-Sky

A diversidade de objetos de céu profundo que podemos distinguir naquela região celeste, levará os observadores a utilização de um telescópio de médio porte; 300mm de abertura ótica já será o suficiente ou até mesmo um simples planisfério celeste para a visão desarmada. Aquela região fica muito mais evidenciada quando as noites não tem a presença da Lua; lembro-me que facilmente em ocasiões propícias e ainda afastado dos grandes centros urbanos consegui vislumbrar aquela região com um simples telescópio refrator. Hoje com o instrumental existente os objetos Deep-Sky naquela região celeste ficarão muito mais deslumbrantes, mas reitero que as condições de seu posto observacional devam ser propícias.

O Aglomerado Globular NGC 362 de magnitude visual 6.4 se resolverá com essa abertura ótica ou até menores quando não temos a interferência da luminosidade lunar e ainda levando se levarmos em conta as condições existentes da poluição luminosa no nosso ponto observacional. Com alguns binóculos (boa ótica) ele apresentar-se-á no campo visual, como uma estrela levemente desfocada e para não haver desgaste sugiro utilizar um tripé para apoio desse equipamento. No telescópio será facilmente observada sua região nuclear bem brilhante. 

Mas quando mencionamos aquela região fica impossível deixar (por algum motivo) de mencionar dois objetos celestes de céu profundo que, fatalmente são alvos prediletos durante as realizações de Star Parties. NGC 104, mas facilmente reconhecível por seu nome popular: 47 Tucanae de magnitude 3.9 será sempre observado e eu não fico admirado se aquela expressão admirativa Uau! surgir entre os participantes de primeira jornada observacional; os motivos que os levam a isso são explicáveis. O simples fato de 47 Tacanae possuir maior brilho que muitos objetos celestes naquela região, e ainda, ao lado da exuberante Pequena Nuvem de Magalhães (NGC 292), faz com que esses dois objetos de céu profundo, saltem do fundo do céu diretamente para a visão contemplativa de um simples binóculo de campo, o  diâmetro angular de 31 minutos de arco de 47 Tucanae ocupará boa parte da área no campo de visão ocular.

NGC 292 – A Pequena Nuvem de Magalhães

Certamente esses companheiros celestes (A Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães) devem ter impressionado extraordinariamente a tripulação do navegante português Fernão de Magalhães (1480-1521, aproximadamente) [...] a serviço da cora Espanhola [...] em sua épica viagem as “ilhas das especiarias”, principalmente as Molucas, pela rota do Ocidente (Tufano, 1969). Este fato além da realização épica da primeira viagem de circunavegação global ser um episódio de enorme significância histórica culminou também com o batismo daquelas companheiras nuvens com nome deste navegador, que viera a falecer nas Filipinas em 1521.

Por quase três anos embarcados certamente aquela tripulação tivera a oportunidade de contemplar durante o período noturno esta área do céu a tal ponto, não escapar a valiosa interpretação do cronista daquela expedição, o italiano Antonio Pigafetta. A sua capacidade de captar detalhes daquela região celeste é fidelíssima quando menciona: “existem várias pequenas estrelas agrupadas, na forma de duas nuvens um pouco separada uma da outra, e um tanto obscuras” (Westerlund, 1997).

A magnitude visual da Pequena Nuvem de Magalhães (por sua sigla em inglês: SMC = Small Magellanic Cloud) na realidade uma das galáxias satélites (de forma irregular) da nossa Via-Láctea (figura. 5), encontra-se estimada em 2.3, sua dimensão (4º.7 x 2º.6) faz com que ela ganhe um destaque significativo em meio as estrelas daquela constelação. A Distância da Pequena Nuvem é cerca de 210 mil anos-luz, fazendo com que ela esteja localizada no halo da nossa galáxia. 

Pouco mais de um século passado, estrelas da Pequena Nuvem de Magalhães foram objetos de análise da astrônoma Henrietta Leavitt, quando em 1912 descobriu-se a relação entre período de pulsação de brilho de uma certa classe de estrelas (variáveis cefeídas) e sua luminosidade (Ratcliffe e Ling, 2006). O que faz com que sejam essas estrelas de importância fundamental para determinação de distâncias galácticas. As recente informações sobre um arqueamento no disco de hidrogênio neutro da Via—Láctea descoberto em 1957, implica diretamente no movimento próprio dessas galáxias em torno da nossa galáxia (Reddy, 2006). 

Eu não tenho dúvidas que novas e boas novidades oriundas daquela área do céu ainda estão a caminho do conhecimento; enquanto isso nas seguras asas dessa celestial ave, podemos apreciar um dos mais belos cenários de céu profundo; a  utilização de telescópios, binóculos ou mesmo a visão desarmada (fato que já é uma atividade muito compensadora) com o auxilio de um modesto planisfério celeste móvel ou carta celeste será apenas um detalhe a mais desde que você esteja olhando para o céu. 

Boas Observações!

Referências:

- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio e Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1987,  914P.

- CAMPOS, Antônio Rosa. Almanaque Astronômico Brasileiro 2014. Belo Horizonte: Ed. CEAMIG (Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais), 2013. Disponível em: <http://www.ceamig.org.br/5_divu/alma2014.pdf> Acesso em: 08 set. 2014.

- AMORIM, Alexandre. REA/BRASIL, Florianópolis, set. 2014. Disponível em < http://rea-brasil.org/cometas/prog2015.htm>. Acesso em: 16 set. 2014.

- CHEVALLEY, Patrick. SkyChart / Cartes du Ciel - Version 3.8, March. 2013. Disponível em:   <http://ap-i.net/skychart/start?id=en/start>. - Acesso em: 06/08/2014.

- TUFANO, Douglas. Grandes personagens da nossa história. v. 1. São Paulo, Abril, 1969, p. 6. Disponível em: <http://literatura.moderna.com.br/catalogo/encartes/85-16-02314-1.pdf>. Acesso em 23 set. 2014.

- FERREIRA JÚNIOR, João Amâncio. GAI-CEAMIG, Coordenação do Grupo de Aquisição de Imagens do CEAMIG, Belo Horizonte, jul. 2014. Disponível em: < http://ceamig.blogspot.com.br/>. Acesso em: 25 set. 2014.

- WESTERLUND, Bengt E. The Magellanic Clouds. In: ____(Org.). Introduction. Cambridge astrophysics series, 29. Cambridge: 1997. p. 01-06.

- RATCLIFFE, Martin;  LING, Alister. O Céu Profundo: As Nuvens de Magalhães. Astronomy Brasil. São Paulo, Ed. Duetto, v.1, n.8, p. 39, dez. 2006.

- REDDY, Francis. Roubo de Estrelas, Galáxias satélites deformam a Via-Láctea. Astronomy Brasil. São Paulo, Ed. Duetto, v.1, n.1, p. 22, mai. 2006.

O asteroide (23) Thalia em 2014!

Antônio Rosa Campos
arcampos_0911@yahoo.com.br
CEAMIG – REA/Brasil - AWB

Em 03 de dezembro próximo, o asteroide Thalia estará com seu posicionamento favorável às observações (fase da Lua = +0.862), quando então sua magnitude chegará a 9.1, portanto já dentro dos limites de magnitudes observáveis de instrumentos óticos de médio porte. A tabela abaixo apresenta suas efemérides e bem como uma carta celeste ilustrativa, objetivando sua localização nos próximos dias.
Como demonstra seu número em ordem de nomeação indicado acima entre parênteses, 23 Thalia foi descoberto em 15 de dezembro de 1852 pelo astrônomo inglês John Russel Hind (1823 - 1895) no Observatório de Londres. Seu nome é uma alusão à musa grega da comédia (Mourão, 1987).

Notas:

1 = (ua)* Unidade Astronômica. Unidade de distância equivalente a 149.600 x 106m. Convencionou-se, para definir a unidade de distância astronômica, tornar-se como comprimento de referência o semi-eixo maior que teria a órbita de um planeta ideal de m=0, não perturbado, e cujo período de revolução fosse igual ao da Terra.

2 = As coordenadas equatoriais ascensão reta e declinação (J2000.0) são apresentadas no formato HH:MM:SS (hora/grau, minuto e segundo).

Referências:

- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio e Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1987,  914P.

- CAMPOS, Antônio Rosa. Almanaque Astronômico Brasileiro 2014. Belo Horizonte: Ed. CEAMIG (Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais), 2013. Disponível em: <http://www.ceamig.org.br/5_divu/alma2014.pdf> Acesso em 08 set. 2014.

- NASA-JPL. Manager by Donald K. Yeomans. Development. Alan B. Chamberlin. Alan B. Chamberlin. Informations the Ephemerides, Solar System Bodies, Orbital Elements, Orbit Diagrams and Discovery Data. Disponível em: < http://ssd.jpl.nasa.gov/horizons.cgi#top>. Acesso em 17 junho 2013.

Sirius, uma estrela na contramão da teoria

Estrela branca pode ter sido vermelha?

*Nelson Travnik

Qualquer astrônomo sabe que Sirius é dupla e de cor branca. Contudo na antiguidade há registros feitos pelos babilônios, egípcios, gregos, romanos bem como em cartas celestes, onde aparece Sirius como uma estrela avermelhada. Numa tradução latina do poema grego de Aratus, Cicéron declara que Sirius ‘cintila como uma luz avermelhada’. Essa estrela de brilho esplendido, a mais brilhante do céu, por isso mesmo a mais notada, tem sofrido em tempos históricos uma estranha transformação em sua luz. Seriam essas observações uma falha nos achados arqueológicos de povos que registraram outros fenômenos com impressionante acuidade ou realmente Sirius mudou de cor? Tudo leva a crer que sim e para chegar a essa conclusão os pesquisadores alemães Wolfhard Schlosser e Werner Bergmann da Universidade de Ruhr, contaram com a sorte de descobrir nas crônicas de São Gregório de Tours, cidade francesa, datadas do ano 577, uma referência a Sirius que a descreveu de cor avermelhada. Acrescente-se que São Gregório não teve acesso aos trabalhos de observadores do céu na antiguidade e era considerado o maior sábio do seu tempo. Para explicar o fato, os pesquisadores sugeriram que a companheira de Sirius era uma estrela do tipo gigante vermelha. De lá para cá sofreu um processo de envelhecimento, queimou quase todo seu combustível nuclear, contraiu e tornou-se uma anã branca. Essa tese foi publicada na conceituada revista inglesa de ciência Nature. 

Contudo para eles, esse processo em Sirius B tomaria no mínimo 100.000 anos e isso implicaria em uma revisão da teoria mais aceita pelos astrofísicos uma vez que a menos de 1500 anos atrás Sirius ainda era avermelhada. Considerando válidos os depoimentos, tudo leva a crer que talvez seja necessário refazer as contas uma vez que a menos de 1500 anos atrás Sirius ainda era avermelhada. 


Um salto evolutivo em cerca de 1500 anos? Em 577, Sirius B seria uma estrela do tipo gigante vermelha e seu brilho ofuscava Sirius A, uma estrela branca. Atualmente Sirius B encolheu, tornou-se uma anã branca e seu tom avermelhado desapareceu enquanto Sirius A não mudou.

ANÃS BRANCAS

As estrelas anãs brancas estão divididas em dois tipos que obedecem uma evolução diferente segundo sua massa original. A primeira é para estrelas com massa entre 0,08 e 0,45 massas solares que após queimar o hidrogênio passa a queimar o hélio e num processo de expansão se transforma em uma gigante vermelha. Esta fase se estabiliza, inicia-se a seguir uma um período de contração e o produto final é uma anã branca com núcleo de hélio. O outro tipo são estrelas com massa inicial entre 0,8 a 10 massas solares. Após consumir o hidrogênio no centro passa a queimar o hélio e numa fase de expansão se transforma em uma gigante vermelha. Contudo o processo de expansão continua passando a transformar o hélio em carbono e oxigênio e o resultado é tornar-se uma super-gigante vermelha. E a coisa não pára ai. No cerne, um núcleo super-massivo irá se transformar em uma anã branca. Ela contudo não consegue reter as camadas externas que passam a se expandir sempre tornando-se uma nebulosa planetária. A anã branca produto deste tipo de estrela é composta de carbono e oxigênio, portanto diferente do primeiro tipo. Baseado neste tipo de evolução estelar mais aceito atualmente e que comprova-se com o que é observado, o que aconteceu com o companheiro de Sirius está enquadrado no primeiro tipo uma vez que não é observado nenhum resíduo de gás envolvendo a estrela e muito menos qualquer sinal de uma nebulosa planetária que estaria sendo facilmente detectada.  As últimas pesquisas apontam que Sirius B tem baixa temperatura, alta luminosidade e tem uma massa solar concentrada em um raio de somente 18.000 km ou 2,8 o raio da Terra. Sua densidade nesse caso é de 2 milhões de vezes a densidade da água! Algumas anãs brancas tem densidades centrais tão altas que uma colher de chá desse material pesaria algo em torno de 50 toneladas! A anã branca de Sirius é a mais próxima conhecida. Atualmente se conhecem mais de 25.000 anãs brancas e 10.000 nebulosas planetárias em nossa galáxia. 

SIRIUS

As características de Sirius são bem conhecidas, É parte da constelação do Cão Maior com uma magnitude aparente de -1,5. Encontra-se a 8,6 anos-luz da Terra, é 1.76 vezes maior que o Sol, 26 vezes mais luminosa e tem uma temperatura superficial de 11.000° K. Devido ao seu forte brilho, para alguns povos significava “a ardente” e para outros “a brilhante”. No Egito antigo, quando ocorria o nascer helíaco de Sirius, iniciava-se a cheia do rio Nilo, evento ansiosamente aguardado pelos habitantes pois era chegada a hora do plantio. Esta data servia também para ajustar o calendário egípcio de 365 dias. Conhecida como Sothis, marcava a criação do mundo e o inicio do ano em seu primeiro nascer helíaco.

A DESCOBERTA

No inicio de 1834, o astrônomo alemão Friederich Wilhelm Bessel (1784-1846), suspeitou que o movimento próprio de Sirius não era uniforme. Dez anos depois, em Königsberg, Alemanha, ele anunciou que as irregularidades observadas no movimento próprio de Sirius só poderia ser explicado pela presença de uma astro perturbador. Constatou o mesmo em Procyon por apresentar também uma flutuação no movimento próprio. O período do companheiro de Procyon mais tarde confirmado por Anwers é de 40,6 anos. A comprovação do companheiro de Sirius veio somente em 1862 através do óptico e matemático americano Alvan G. Clark (1832-1897) quando testava com seu filho uma luneta com objetiva de 47 cm por ele construída. Entretanto foi o filho que viu primeiro: pai ! Sirius tem uma companheira! Bessel inaugurou o primeiro capítulo do que poderíamos chamar de ‘astronomia do invisível’ pois foi prevista em razão do efeito gravitacional no movimento próprio da estrela principal. Nesse aspecto cumpre destacar também a descoberta em 1969 de um companheiro invisível na estrela Aitken 14 feita pelo astrônomo brasileiro Ronaldo R. de Freitas Mourão (1935-2014). Tal descoberta foi confirmada pelo astrônomo francês P. Baize e pelo astrônomo austríaco J. Hoppmann que determinou sua órbita provisória. A descoberta de Bessel inaugurou uma nova categoria de estrelas: as anãs brancas. 

OBSERVAÇÃO

As duas estrelas se atraem mutuamente ao redor de um centro de gravidade comum, com período de 50 anos. Sirius B é dez magnitudes mais fraca que Sirius A. Sua observação só é possível com grandes instrumentos ou aberturas menores munidas com câmaras CCD. Contudo isso não basta e é necessário conhecer a época em que Sirius B se encontra mais afastada de Sirius A (apoastro) em razão do brilho intenso dessa estrela. O gráfico abaixo mostra a órbita aparente relativa de Sirius B, com as posições no periastro e apoastro, onde vê-se que as melhores épocas de observação foram de 1960 a 1980 com destaque em 1973 na maior separação aparente (11,5 segundos de arco). Atualmente a observação de Sirius B é muito difícil. A história envolvendo Sirius é intrigante, fascinante e mostra que assim como existem muitos mistérios na Terra, os há também no céu. 

*O autor é diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba, SP e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

Referências
Astronomy, R. Baker e L. W. Frederick, 1971.
Scientific American Brasil, edição especial nº 13, Estrelas.
Astronomia & Astrofísica, Kepler de Oliveira e Maria de F. Saraiva, LF editorial, 2014
Astronomie Populaire, Camille Flammarion, nova edição, 1955.
Les Etoiles et les Curiosités du Ciel, Camille Flammarion, Ernest Flammarion editeur, 1896
Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica, Ronaldo R. de Freitas Mourão, 2ª edição, editora Nova Fronteira, 1995.