domingo, 1 de outubro de 2017

Cresce a agressividade das mudanças climáticas.

Nelson Alberto Soares Travnik (*)
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum

Será que o clima está piorando? O que significa tantas catástrofes juntas ? Será que a Mãe Natureza está perdendo a paciência? Será que nós como espécie dominante poderemos acabar um dia? Será que apesar de tanta tecnologia seremos capazes de sobreviver até mesmo em condições extremas como as que aconteceram nas grandes glaciações? Não se pode negar que o planeta vive um tempo de catástrofes: furacões, ciclones, tempestade tropicais mais intensas (a Harvey e a Irma nos USA é um exemplo disso), tremores onde não haviam e secas severas.

A resposta é que essas mudanças radicais sempre aconteceram e que por vezes a continuidade da vida chegou a ser ameaçada. Muito do que acontece são fenômenos naturais apesar da agressividade. Acontece que a noção do tempo dos humanos é bastante diferente do tempo da Terra e por isso é comum uma ou outra pessoa apelar até mesmo na possibilidade do ‘fim dos tempos’ estar próximo quando um grande desastre natural ocorre.  Um comportamento presente em todas as culturas.

Há pelo menos 10.000 anos, vivemos hoje uma era de excepcional estabilidade no que diz respeito a última era glacial. Existem contudo evidências comprovadas geologicamente que o nosso clima não tem a estabilidade que conhecemos. Elas provam que por varias vezes nosso planeta esteve coberto de gelo e neve até a linha do equador e, por outro lado, as regiões próximas aos pólos tinham clima ameno com vegetação típica dos trópicos  e onde circulavam mamíferos e outras muitas espécies. Os cientistas concordam que há 580 milhões de anos aconteceu uma gigantesca glaciação e que os oceanos congelaram levando a extinção de 99% da vida no planeta

O mais espantoso é que a Terra submetida a temperaturas tão drásticas, sugere que a vida é muito mais robusta que pensávamos antes e que o clima da Terra é muito menos estável do que os cientistas supunham. O fato é que após o fim da glaciação aconteceu uma explosão da vida e isso permitiu a evolução dos seres humanos a partir de 2,5 milhões de anos. Outra grande glaciação climática aconteceu há 65 milhões de anos quando um asteróide de 10 km de diâmetro atingiu a Terra na baia de Yucatán no México, provocando mudanças drásticas no clima e levando a extinção de 80% da vida na Terra, incluindo os dinossauros. É licito lembrar também as pequenas glaciações como a ultima que assolou a Europa de 1600 a 1800 quando os rios congelaram. Estudos mostraram que a Pequena Era Glacial coincidiu com um período extenso da mínima atividade solar conhecida como mínimo de Maunder com um período quase nulo de atividade. É sabido que essa atividade está ligada ao numero de manchas solares que apresenta variações em um período de 11 anos. Isso pode ser comprovado  a partir dos anéis  de crescimento das árvores que registram variações térmicas com maior concentração do carbono 14, a forma não estável desse elemento associado a mínimas solares. Assim, tudo que acontece no Sol se reflete na Terra. 

Os oceanos são atores essenciais da evolução do clima. Os indicadores do aquecimento global mostram que vão muito além do Protocolo de Kyoto. São assustadores. Na medida em que o século avança, as temperaturas podem subir 3º C até 2100.  Alaska e Sibéria registram as maiores taxas de aquecimento do planeta. O derretimento de gelo na Antártida e na Groenlândia é produto do aquecimento global. Com o gradual degelo das calotas polares, o nível do mar está aumentando   e significará que cidades costeiras como Santos serão invadidas pelo mar e 200 milhões de pessoas terão que abandonar suas moradias. Recentemente habitantes de uma das ilhas da Indonésia tiveram que abandonar a mesma e mesmo aqui em algumas costas do Brasil o mar já avançou obrigando os moradores a abandonarem suas casas. O aquecimento apresentando por um Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas IPCC e da ONU, apontam que o derretimento das geleiras irá provocar ressacas, deslizamentos, inundações, falta de água potável, desaparecimento de uma serie de espécies, pobreza crescente e um êxodo de dezenas de milhões de “refugiados do clima”. O aquecimento já está derretendo as geleiras dos Andes e ameaça a Floresta Amazônica. Também o degelo das geleiras glaciares do Kilimanjaro na Tânzania é uma realidade ou seja: o monte perdeu 80% da sua neve e se continuar nesse ritmo desaparecerá em 2021. O monte tinha uma área de mais de 12 km2 coberto de gelo e hoje não chega a 3 km2. Uma grave ameaça para o abastecimento hídrico da região com a redução do caudal dos rios que descem a partir dos gelos. Nesse cenário assustador, as nações mais próximas aos pólos, Rússia e Canadá por exemplo, devem ser brevemente beneficiadas. Pesquisas assinalam que os oceanos estão aquecendo 50% a mais do que o previsto. O grande vilão, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, não é provocada como alguns pensam apenas pelo homem. Um vulcão ativo também contribui para isso. Com o advento da era industrial, os climatologistas começaram a apelar para a emissão desenfreada do dióxido de carbono que é o gás que mais influencia as temperaturas da superfície terrestre. Assim surgiu o indesejável efeito estufa. E vale aqui recordar sempre as palavras do Chefe Seatle, índio americano do século passado: “o que acontecer com a Terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não trançou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios; Tudo que fizer ao tecido, fará a si mesmo”. Outrossim,  os motivos para essas mudanças climáticas recaem também na inclinação do eixo de rotação da Terra.  Apenas 5% de variação para mais ou para menos é capaz de transformar o planeta em um deserto ou uma bola de neve. Urge não pensar apenas em nossas necessidades mas de todo o sistema Gaia, como a nossa grande e única Casa Comum.

Nelson Alberto Soares Travnik é astrônomo, membro titular da Sociedade Astronômica da França e Membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.


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